16/06/2010

Aqui...

Aqui ouvem-se dialectos críticos e reflectidos,
de civilizações jazentes mas eternas.
As linhas arquitectónicas de dóricas,
masculinas e robustas.
Aqui vêm-se esculturas bizarras e coloridas,
feitas de cacos de uma vida doméstica,
numa cozinha decorada de animais de loiça.
Aqui o menino brinca, calmo e sereno
envolto de animais aquáticos
vizinhos de estranhas aves.
Aqui o calor aquece as mãos mas
não incorre na alma,
fria e desperta nas brisas que ondulam
como ligeiros sorrisos,
deste lago,
que nada diz e tudo faz esquecer.
Aqui a dicotomia de cores verdes,
não trazem esperança mas trazem alento.
Ao fundo uma pirâmide multicolor, de faixas,
querendo subir ao alto do céu, que não esta pesado.

E eu aqui ciente de que são os sonhos a vida em que vivo.
Mas falta-lhes a brisa, para que sorriam,
a calma para que existam,
a dialéctica para que se construam
e a cor para subir ao céu,
escada para o fim em vitória..

02/06/2010

...

Transcrevo pela beleza e intensidade de o que se sente nele...
Como diz o poeta :
Dizem que finjo ou minto tudo o que escrevo...Eu sinto com imaginação e não uso o coração..
Por isso escrevo em meio...,Sentir? Sinta quem o lê!

...

Com cada lágrima que brota deste olhar,
de rosas murchas,
tento espremer, o ultimo resquício de ser e sentir, de existir...
Na penumbra da noite,
consolo no luar frio,
este calor aflito que ninguém compreende ou sente.
A vida que defino na busca da felicidade,
do amor (aquela utopia)
De amor fulgurante,
que se incendeia a cada dia que amanhece,
se multiplica em curvas de prazer em cada anoitecer.
Que embebeda as mentes
com palavras doces mas loucas.
Que provam o bem do vinho dos deuses,
O bem da loucura divina,
O bom de sentir...
O não da consciência destrói e arrebata essa vida,
Torna caos a loucura.
E o problema do mundo não é a loucura,
mas o caos.
O caos de uma linha de vida,
que se perde,
que se corta,
que se abisma:
no zero;
no não;
no nada;
"Esse nada que é tudo
mas um tudo que é nada.
Nada de feliz,
Nada de confortante,
Nada de arrebatador,
Nada de maravilhoso,
Tudo de dor,
Tudo de estrondoso,
Tudo de desolador.
Vida desolada.
Perdida na neblina de um mar vermelho.
Sangue de dor,
de um coração mirrado.


Algures em 2009

Para quem estranha a alma...

Fernando Pessoa o homem das quadruplicidade...mas que chega com racionalidade a quem sofre de incompatibilidades e desajustes de alma...ou para os introspectivos que estão na construção do seu EU...

HORA ABSURDA


O TEU SILÊNCIO é uma nau com tôdas as velas pandas...
Brandas, as brisas brincam nas flâmulas, teu sorriso...
E o teu sorriso no teu silêncio é as escadas e as andas
Com que me finjo mais alto e ao pé de qualquer paraiso...

Meu coração é uma ânfora que cai e que se parte...
O teu silêncio recolhe-o e guarda-o, partido, a um canto...
Minha idéia de ti é um cadáver que o mar traz à praia..., e
entanto
Tu és a tela irreal em que erro em côr a minha arte...

Abre tôdas as portas e que o vento varra a idéia
Que temos de que um fumo perfuma de ócio os salões...
Minha alma é uma caverna enchida p'la maré cheia,
E a minha idéia de te sonhar uma caravana de histriões...

Chove ouro baço, mas não no lá-fora...É em mim...Sou a Hora,
E a Hora é de assombros e tôda ela escombros dela...
Na minha atenção há uma viúva pobre que nunca chora...
No meu céu interior nunca houve uma única estrela...

Hoje o céu é pesado como a idéia de nunca chegar a um pôrto...
A chuva miúda é vazia...A Hora sabe a ter sido...
Não haver qualquer coisa como leitos para as naus!...Absorto
Em se alhear de si, teu olhar é uma praga sem sentido...

Tôdas as minhas horas são feitas de jaspe negro,
Minhas ânsias tôdas talhadas num mármore que não há,
Não é alegria nem dor esta dor com que me alegro,
E a minha bondade inversa não é nem boa nem má...

Os feixes dos lictores abriram-se à beira dos caminhos...
Os pendões das vitórias medievais nem chegaram às cruzadas...
Puseram in-fólios úteis entre as pedras das barricadas...
E a erva cresceu nas vias férreas com viços daninhos...

Ah, como esta hora é velha!... E tôdas as naus partiram!
Na praia só um cabo morto e uns restos de vela falam
De longe, das horas do Sul, de onde os nossos sonhos tiram
Aquela angústia de sonhar mais que até para si calam...

O palácio está em ruínas... Dói ver no parque o abandono
Da fonte sem repuxo... Ninguém ergue o olhar da estrada
E sente saudade de si ante aquêle lugar-outono...
Esta paisagem é um manuscrito com a frase mais bela cortada...

A doida partiu todos os candelabros glabros,
Sujou de humano o lago com cartas rasgadas, muitas...
E a minha alma é aquela luz que não mais haverá nos
candelabros...
E que querem ao lago aziago minhas ânsias, brisas fortuitas?...

Por que me aflijo e me enfermo?...Deitam-se nuas ao luar
Tôdas as ninfas... Veio o sol e já tinham partido...
O teu silêncio que me embala é a idéia de naufragar,
E a idéia de a tua voz soar a lira dum Apolo fingido...

Já não há caudas de pavões tôdas olhos nos jardins de outrora...
As próprias sombras estão mais tristes...Ainda
Há rastros de vestes de aias (parece) no chão, e ainda chora
Um como que eco de passos pela alamêda que eis finda...

Todos os ocasos fundiram-se na minha alma...
As relvas de todos os prados foram frescas sob meus pés frios...
Secou em teu olhar a idéia de te julgares calma,
E eu ver isso em ti é um pôrto sem navios...

Ergueram-se a um tempo todos os remos...pelo ouro das searas
Passou uma saudade de não serem o mar...Em frente
Ao meu trono de alheamento há gestos com pedras raras...
Minha alma é uma lâmpada que se apagou e ainda está quente...

Ah, e o teu silêncio é um perfil de píncaro ao sol!
Tôdas as princesas sentiram o seio oprimido...
Da última janela do castelo só um girassol
Se vê, e o sonhar que há outros põe brumas no nosso sentido...

Sermos, e não sermos mais!... Ó leões nascidos na jaula!...
Repique de sinos para além, no Outro Vale... Perto?...
Arde o colégio e uma criança ficou fechada na aula...
Por que não há de ser o Norte e Sul?... O que está descoberto?...

E eu deliro... De repente pauso no que penso...Fito-te...
E o teu silêncio é uma cegueira minha...Fito-te e sonho...
Há coisas rubras e cobras no modo como medito-te,
E a tua idéia sabe à lembrança de um sabor de medonho...

Para que não ter por ti desprêzo? Por que não perdê-lo?...
Ah, deixa que eu te ignore...O teu silêncio é um leque ---
Um leque fechado, um leque que aberto seria tão belo, tão belo,
Mas mais belo é não o abrir, para que a Hora não peque...

Gelaram tôdas as mãos cruzadas sôbre todos os peitos....
Murcharam mais flôres do que as que havia no jardim...
O meu amar-te é uma catedral de silêncio eleitos,
E os meus sonhos uma escada sem princípio mas com fim...

Alguém vai entrar pela porta...Sente-se o ar sorrir...
Tecedeiras viúvas gozam as mortalhas de virgens que tecem...
Ah, o teu tédio é uma estátua de uma mulher que há de vir,
O perfume que os crisântemos teriam, se o tivessem...

É preciso destruir o propósito de tôdas as pontes,
Vestir de alheamento as paisagens de tôdas as terras,
Endireitar à fôrça a curva dos horizontes,
E gemer por ter de viver, como um ruído brusco de serras...

Há tão pouca gente que ame as paisagens que não existem!...
Saber que continuará a haver o mesmo mundo amanhã --- como

nos desalegra!...
Que o meu ouvir o teu silêncio não seja nuvens que atristem
O teu sorriso, anjo exilado, e o teu tédio, auréola negra...

Suave, como ter mãe e irmãs, a tarde rica desce...
Não chove já, e o vasto céu é um grande sorriso imperfeito...
A minha consciência de ter consciência de ti é uma prece,
E o meu saber-te a sorrir é uma flor murcha a meu peito...

Ah, se fôssemos duas figuras num longínquo vitral!...
Ah, se fôssemos as duas côres de uma bandeira de glória!...
Estátua acéfala posta a um canto, poeirenta pia batismal,
Pendão de vencidos tendo escrito ao centro êste lema --- Vitória!

O que é que me tortura?... Se até a tua face calma
Só me enche de tédios e de ópios de ócios medonhos...
Não sei...Eu sou um doido que estranha a sua própria alma...
Eu fui amado em efígie num país para além dos sonhos...



Fernando Pessoa

31/05/2010

Esclarecimento de mitos

Dizem que a Mulher é a intriga arrebatadora, para muitos o labirinto, que eternamente move as suas paredes. A saída ou descoberta depende dessa luta constante sobre as paredes que se movem e redefinem o caminho...
Eternos Teseus...o "Minotauro" da mulher é o teste à força e preserverança do sentimento masculino.Mais do que encontrar o caminho, é manter a vontade de sempre querer chegar a esse caminho....por tamanho e desmesurado sentimento.
estendemos os fios que não encontram, pois domina vos a objectividade e nós somos o vosso "inconsciente".
Estamos lá ...mas sabem o que sempre acontece, entram no labirinto de forma apoteótica e acabamos vendo vos retornar, e fica todo o embaralhado de situações e acontecimentos para a mulher limpar no seu labirinto...
Ariadne ajudou Teseu mostrou-lhe o amor e entregou a solução...para ser trocada anos mais tarde por outra paixão...

19/05/2010

Vai e vem

O comum não deixa saudades,
não marca as memórias,
Só as lembranças que doem ou as que fazem sorrir.
Há o que fica na história da gente e o que nem se recorda quando se ouve.
São as emoções que dão vida às saudades que possuo.
Há dias que marcam a vida, que não nos permitem ao esquecimento.
A chuva bate no arrepio do peito, o sol aquece fazendo a saudade.

Quem dorme comigo de noite é o medo que mora aqui,
me embala num vai e vem de solidão.
Fala com o silêncio, com a voz do vento.
Perturba a razão...não há grito que salve o que esta dentro...
É a ponte do fim!
A tristeza que se carrega sem se pedir,
não conseguir ler o que se escreve na frente do nosso olhar.

17/05/2010

Demons all!

Volto ao mesmo lugar,
vazio mas tão profundo,
o meu pensamento,
demasiado incomodado,
entorpecido e cansado.

Estou exausta deste cansaço de pensar, deliberar e até decidir...
Devia não sentir...isso traria-me a isenção de sofrimento...
Poderia molestar agora o português e horrorizar com uma panóplia de palavras desregradas...
Preciso expelir esta massa gravitacional negra,
inspirar a nova estação!
O meu recanto, nesta cidade ensurdecedora deve estar diferente..?!
Repleto de vozes cantantes, procriação e criação, cores risonhas, brisas quentes ...mas não vou lá...a circunstância mudou e evolui, estou certa, mas eu continuo sem saber quem sou e o que faço aqui...
Demons all!!!

06/05/2010

Ditames de um astro...

Estava visionando com ar crítico o meu signo...(sim essa tal influência astral)...
Ora o mesmo diz que harmonia e equilíbrio são fundamentos da minha vida...( é vero)e seria simples, não fossem as inexplicáveis situações complexas em que me envolvo...Pareço andar, querer e gostar de passar o tempo a balancear, na procura do equilíbrio. O que é absolutamente fatigante e quase imoral.
Diz que possuo uma instintiva necessidade de proteger as pessoas e as necessidades delas.É Bom, de facto, sou pois dotada( dizem) de um incansável sentido altruísta, mas que leva as réstias de sanidade mental que possuo...
Refere que consigo de forma discreta e com encanto, tudo o que seria particularmente difícil...enfim, sem comentários, sou " a ovelha negra" dos balanceários...
Estar bem com os outros é algo muito importante para mim, procuro-o e pretendo-o na minha vida, contudo é uma verdadeira missão impossível...
Sim é verdade... busco uma pessoa que seja compatível com a minha capacidade intelectual e emocional, considero muito os símbolos tradicionais de demonstração de amor... O amor para mim é, deve ser, como uma arte: requere tempo, atenção, carinho e muito esforço no campo da criatividade...
Conclusão sou um ser deveras complicado e esta coisa de alinhar pratos deixa-me exausta, cansada de viver...Depois sinto me alvo de incompreensão...
De facto, o meu mundo não é este, e talvez seja este o certo e eu deva ter sido apenas uma personagem de um qualquer conto infantil, vivendo no mundo fictício..

Hello Innocence